sábado, 18 de abril de 2020

Correndo atrás

Os efeitos da crise econômica causada pelo coronavírus serão devastadores na economia mundial. No Brasil não será diferente, porém há a necessidade de as autoridades econômicas tomarem medidas para amenizar estes efeitos sobre a população com maior vulnerabilidade social.

Muitas pessoas tentam relativizar os efeitos da crise e outros, inclusive o presidente Bolsonaro, afirmam que a queda na atividade econômica e o fechamento de pequenas empresas serão causadas pela estratégia de isolamento social como combate à propagação do vírus. O discurso do presidente vem no sentido de criticar o isolamento e distanciamento social como medida de prevenção, uma vez que, com esta estratégia, muitas atividades econômicas são prejudicadas.

Pois bem, não tem uma fórmula pronta para o enfrentamento de crises econômicas. Mesmo para uma crise global, os efeitos locais dependerão muito dos fundamentos de cada economia, ou seja, de como que as autoridades econômicas administravam os seus agregados econômicos. Por conta disto, os efeitos são de difícil previsão. O que é certo é que a atividade econômica irá cair causando um aumento do desemprego e o fechamento de muitas empresas.

É fato que os efeitos desta nova crise na economia brasileira serão maiores do que os das anteriores, há quem afirme que os efeitos serão os piores dos últimos 120 anos. Tudo vai depender das “respostas” do setor público para o enfrentamento da crise econômica. Em nível federal a maior desconfiança fica sobre as ações da equipe econômica de aceitar a implementação de políticas e ações divergentes dos princípios liberais, que é o dominante na equipe.

Se o governo seguir uma cartilha liberal no sentido estrito poderemos ter um agravamento da crise na sua dimensão social. Nosso país possui uma grande desigualdade social o que significa que há um grande contingente de pobres e miseráveis que precisam de auxílio nos momentos difíceis. Muitas famílias já estão passando fome e as ações entre amigos, de entidades de apoio e assistência social e mesmo as prefeituras buscam amenizar a situação com a distribuição de cestas básicas.

Porém a demora dos governos em tomar medidas econômicas como forma de amenizar a crise econômica pode agravar este cenário. Digo demora porque o que foi feito até o momento ainda se apresenta como pouco diante do quadro que está se desenhando para o futuro próximo. Não há a negação de que o governo já esteja agindo. Só há uma análise de que é preciso muito mais.

O setor público terá que ter um papel maior na economia para combater a crise e isto é conflitante com os princípios liberais da equipe econômica. Isto significa que o governo terá que dispender de mais recursos, o que aumentará o rombo nas contas públicas. Muitas coisas podem ser feitas pelo setor público para amenizar os efeitos da crise econômica, porém todas elas têm os seus custos.

É certo que a meta de resultado primário, que já era de déficit, não será cumprida. Com certeza o déficit será o quádruplo ou o quíntuplo do inicialmente projetado. O coronavírus já causou um desequilíbrio maior nas contas públicas e ainda terá mais efeitos negativos. Isto nas economias que se disporem a proteger os seus cidadãos, principalmente aqueles que se encontram em risco social.

O governo brasileiro está agindo, mas é preciso muito mais. O desajuste social que restará trará efeitos que serão sentidos por anos com o maior empobrecimento da população, que poderá causar vulnerabilidade por doenças que antes já estavam erradicadas de algumas comunidades, e diminuirá a capacidade produtiva da economia. O momento de agir é agora. O governo não pode demorar mais.

sábado, 11 de abril de 2020

Analisando os discursos


Os efeitos sociais e econômicos da pandemia do coronavírus são difíceis de serem previstos. Tudo vai depender das ações efetivas no combate ao crescimento dos casos de infecções e, principalmente, na eficiência de se evitar muitos óbitos. Para este enfrentamento a alternativa pregada no mundo todo é o isolamento social.

Se contrapondo ao isolamento social está a necessidade de se manter a atividade econômica para minimizar os efeitos recessivos nas economias mundiais. Cada vez mais, os eventos conduzem para um estado de economia de guerra.

Há muitas divergências de opiniões acerca da efetividade e eficiência dos governos na implementação de políticas públicas para amenizar o quadro econômico que se desenha. As economias do mundo irão crescer menos (algumas irão encolher) e com isto haverá um forte impacto sobre o emprego e a renda. Com efeito, haverá um aumento da pobreza e um aprofundamento da miséria em todos os países.

Mas a prioridade dos países deve estar focada na preservação de vidas. Porém, isto somente será possível se os governos estiverem aptos e dispostos a “colocarem as mãos nos bolsos” aportando dinheiro novo nestas ações, além, é claro, de redirecionar os recursos existentes para as ações prioritárias.

No caso brasileiro estamos vivenciando um período de forte polarização política tendo de um lado o Presidente Bolsonaro e um conjunto muito grande de seguidores e apoiadores e de outro os oposicionistas que foram, na sua maioria, preteridos no último pleito eleitoral. Entretanto, muitos que tentam efetuar uma análise mais crítica da realidade sem paixões, acabam sendo rotulados como adversários por ambos os lados.

O que as pessoas devem aprender a efetuar, mesmo que de forma simplista, é uma análise responsável do discurso das pessoas. O estudo da análise do discurso é importante para que as pessoas consigam compreender as diferentes práticas discursivas da sociedade. Desta forma, o analista tem que compreender o que se entende sobre o discurso, como ele é constituído, quem o emprega e o momento em que ele é efetivado. Em outras palavras, tem que se analisar, também, o sujeito do discurso, o ambiente e o momento, uma vez que agrega posição ideológica e se apresenta no dia a dia das estruturas sociais.

Pois bem, quando afirmamos que os governos deverão se empenhar para amenizar os efeitos da pandemia sobre a economia, é fato. Não cabem muitos questionamentos. Porém, a forma com que cada governo decide atuar, isto já dependerá do modelo político e econômico de cada país, além da linha ideológica dos agentes que detém o mando político neste momento.

Neste ponto identificamos diversos sinais trocados nas falas dos nossos agentes políticos, o que contribui para o acirramento dos ânimos dos extremos e a pressão sobre aqueles que tentam efetuar uma análise mais equilibrada do cenário posto.

A posição oficial do governo brasileiro é de que a economia não irá crescer neste ano. Já a mediana dos analistas do mercado financeiro aponta que haverá recessão, com a economia encolhendo 1,2%. Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, aponta para um recuo de 4% se o isolamento for além de julho. Também temos que considerar que os anúncios de apoio do governo são para um escopo temporal de três meses.

Pois bem, se considerarmos estes falantes é certo que o governo “aposta” que os efeitos da pandemia irão se estender até o mês de julho para depois começar a retomada. Porém, já temos a certeza de que os resultados econômicos serão avassaladores. Por conta disto precisamos de mais governo na economia para fazer o enfrentamento desta crise.

sábado, 4 de abril de 2020

Uma nova conjuntura social

A crise econômica que se avizinha por conta dos efeitos da pandemia da Covid-19 (Coronavírus) ainda não é possível de ser dimensionada no Brasil e muito menos no mundo. Para além das questões que envolvem estatísticas de contaminação e de óbitos sabemos que os efeitos econômicos também serão extremamente danosos para a economia mundial.

Por conta disto as economias pelo mundo afora anunciam e implementam medidas para amenizar os efeitos de uma das maiores crises sanitárias da história da humanidade sobre as suas respectivas economias. No Brasil também está ocorrendo estes anúncios. De forma tardia, mas está. O governo federal, através de sua equipe econômica demorou um pouco para apresentar as medidas, mas as apresentaram.

A impressão que dava era de que o governo estava relutante em apresentar medidas mais progressistas, que implicassem em renúncia de receita ou de aumento de gastos. Porém, não é o momento de pensar em economizar ou de buscar atingir metas fiscais. É momento de garantir, primeiro, a manutenção de vidas e depois se avalia as alternativas para amenizar os danos causados nas economias.

A onda liberal que tomou conta de muitas economias no mundo não consegue lidar com estas questões de forma mais natural, afinal de contas os liberais têm como modelo o individualismo sendo prioritário frente ao coletivo. De forma surpreendente nos vemos com economias tidas como liberais agindo de forma intervencionista e tomando medidas consideradas como keynesianas.

Estas medidas têm sua origem nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes, que defendia a ação do estado na economia com o objetivo de atingir o pleno emprego. Suas ideias foram desenvolvidas a partir da análise dos efeitos da “Grande Depressão”, também conhecida como “Crise de 1929”.

Práticas rechaçadas pelos liberais sempre foram utilizadas e surgem, novamente, como alternativas eficientes para o combate de crises econômicas. Isto aconteceu nos Estados Unidos, um dos berços do liberalismo, durante o governo Obama para enfrentar a crise financeira mundial de 2008 e está sendo utilizada pelo governo Trump para enfrentar a nova crise.

O governo brasileiro acordou do sono profundo e admitiu que é necessário tomar medidas econômicas mais robustas. Por conta disto, anunciou algumas medidas que foram bem recebidas pelos analistas e as quais estão sendo indicadas como alternativas factíveis para amenizar o aumento exponencial do desemprego no país.

O desemprego será o maior efeito da crise da Covid-19. Todas as economias terão impactos sociais consideráveis por conta do aumento do desemprego global que, por sua vez, será gerado pela redução do nível de atividade econômica. Esta nova crise aumentará o tamanho da pobreza e da miséria e dependerá das ações dos governos para ser combatida e revertida nos próximos anos.

Somente no Brasil a expectativa é de que cerca de 3 milhões de brasileiros percam seus empregos. Estes novos desempregados se somarão aos 12 milhões existentes, gerando um volume de desempregados superior ao do primeiro trimestre do ano de 2017. Também poderá ocorrer um aumento significativo das pessoas subocupadas por insuficiências de horas trabalhadas, que atualmente totalizam 6,4 milhões de pessoas.

Não é hora de os governos ficarem olhando para os próprios bolsos para economizarem moedas. É o momento de se tomarem medidas para, primeiramente, preservar vidas, e num segundo momento para garantir um mínimo de dignidade para as pessoas através da garantia de emprego e renda. É o momento de se socializar o Estado e de se estatizar a sociedade.  Assim, a onda liberal deverá se amoldar à nova conjuntura social.