terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Matraca desvairada

Recentemente afirmei que o governo Bolsonaro não é o pior do período da redemocratização porque tivemos o governo de Dilma Rousseff. Pois bem, ele conseguiu empatar e está “por um triz” para fazer mais estragos econômicos e sociais do que o governo Dilma. E o pior é que tanto um quanto o outro governo possuem seguidores cegos que não conseguem enxergar os danos causados pelas decisões inconsequentes.

O costume de Bolsonaro falar com seu séquito fanático sem nenhuma pauta pré-definida provoca estragos gigantescos e uma prova disto é o recente caso da troca de comando na Petrobrás. Pressionado pelo movimento dos caminhoneiros por causa das sucessivas altas no preço do diesel o presidente vociferou frases prontas que seus fãs gostam de ouvir e anunciou a demissão do presidente da Petrobrás com críticas ácidas e improcedentes ao mesmo tempo que já indicou o general Joaquim Silva e Luna como seu sucessor.

Que a indicação do presidente da Petrobrás é uma prerrogativa do presidente da República não se discute, porém deve-se atentar que a empresa possui acionistas no mundo todo que investem em suas ações por conta da possibilidade de lucros. Quando uma empresa dá indícios de que terá uma gestão temerária há um movimento de venda de suas ações, desvalorizando o seu valor de mercado.

É isto que aconteceu nos últimos dias com a Petrobrás. Muitos investidores preocupados com as declarações de Bolsonaro acerca da troca de comando e criticando os aumentos sucessivos do preço dos combustíveis deu sinais de que pretende interferir na política de preços da empresa, o que prejudica a sua rentabilidade. Por conta disto, muitos investidores começaram a se desfazer de suas posições acionárias da Petrobrás, o que gerou uma desvalorização das ações da empresa, causando uma perda de valor de mercado em torno de R$ 100 bilhões.

O que preocupa Bolsonaro é somente a sua popularidade que está em queda e que pode prejudicar o seu desempenho nas eleições de 2022. Por isto não está medindo esforços no sentido de anunciar políticas populistas como a redução dos preços dos combustíveis e da energia elétrica, aumento de gastos públicos e a volta do auxílio emergencial. Ele parece não estar preocupado com as consequências de seus atos, uma vez que não se pode fazer tudo isto de qualquer forma, sem planejamento. Para tudo tem que se ter um método, coisa que Bolsonaro não tem.

A política de preços da Petrobrás não é unanimidade. Há quem discorde com sua base no preço internacional porque cerca de 80% de sua produção é doméstica, portanto, seus custos não deveriam seguir os preços internacionais que sofrem influência do cartel da OPEP acrescidos da variação cambial. Para eles a precificação dos combustíveis deveria seguir os custos internos acrescidos de uma taxa de lucro.

O presidente Bolsonaro está atuando como uma matraca desvairada que, com sua idiossincrasia, poderá provocar oscilações significativas na inflação, juros e taxa de câmbio desestruturando os fundamentos da economia e dificultando a retomada do crescimento econômico que tanto necessitamos para a redução do desemprego e melhoria do nível de renda para amenizar o aumento da pobreza e extrema pobreza.

Bolsonaro está cometendo os mesmos erros de Dilma, fazendo os mesmos movimentos. Com efeito, todos sofreremos as consequências perversas de seu projeto particular de reeleição. Tomara que ele escute os seus assessores da área econômica e revise sua intenção de interferir na política de preços da Petrobrás, deixando isto para os especialistas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Do fanatismo à inércia social


Dizem que o brasileiro é um povo fanático. Concordo, uma parcela significativa da população pode ser considerada fanática por algo. Temos fanáticos religiosos, fanáticos por futebol e até fanáticos por política. Mas a característica de sermos fanáticos por alguma coisa não é exclusividade. Outros povos também são fanáticos por algo. São praticamente as mesmas vontades e comportamentos, com exceção dos limites que as organizações sociais impõem para os comportamentos de seus fanáticos.

Temos, de certa forma, um fanatismo religioso, mas conseguimos conviver muito bem com a diversidade religiosa que não impõem divergências violentas como acontece em outros países. Temos o fanatismo por futebol onde ainda existem as torcidas organizadas que já demostraram que são extremamente violentas e até o presente momento nossa organização social ainda não decidiu pelo banimento destes grupos que destoam de nosso conjunto social.

Há diversos relatos de brigas entre torcidas organizadas tendo como resultado a depredação do patrimônio público e privado, muitas pessoas feridas e algumas até perdendo a vida. E ainda persistimos em permitir a existência dessas agremiações. Até entre amigos e familiares existem divergências motivadas pelo fanatismo por futebol que causam discórdias. Não deveria ser assim, mas é.

Também temos os fanáticos por política e por políticos. No mundo todo existem esta modalidade de fanatismo que se torna mais intenso conforme o nível cultural da sociedade.

Todos dependemos de política, não podemos nos desinteressar por política porque é ela que define todas as regras de convivência social e a utilização plena de nossos direitos e o acompanhamento do cumprimento de nossos deveres. Não gostar e não discutir política serve como uma delegação para que outras pessoas o façam por nós, o que é temerário. Se preocupar, discutir e influenciar na política é uma demonstração de nível cultural elevado de uma sociedade, e esta prática deve ser preservada.

Já a adoração e o fanatismo por políticos são controversos, embora também sejam comuns. Atualmente, isto está muito evidenciado em textos que recebemos em aplicativos de mensagens instantânea e nas redes sociais. Temos uma grande cisão social, onde uma parcela defende um fanatismo exagerado pelo presidente Bolsonaro, uma outra parcela defende uma oposição focada na figura do ex-presidente Lula e ainda temos pequenas parcelas que defendem outros políticos e até mesmo alguns que buscam aplicar a chamada racionalidade humana.

Há que diga que o governo Bolsonaro é o melhor de todos os tempos, não acredito nisto. Já há quem diga que é o pior do período da redemocratização. Também não acredito nisto e costumo dizer que na questão social e econômica ele não é o pior do período porque tivemos o governo de Dilma Rousseff. O governo Bolsonaro pode até não ter tido tempo de fazer muita coisa na área social e econômica, mas o problema é que não apresentaram um projeto de resgate econômico e social.

A defesa intransigente de figuras políticas, beirando a idolatria, como ocorre com Bolsonaro e Lula, são extremamente danosas para a sociedade e fere de morte a racionalidade econômica e social. Temos que ter um limite para o fanatismo com nossos políticos e este limite deve ser a racionalidade. Não há argumentos e inexistem fatos que os coloquem como “salvadores da pátria” ou como “mitos”. Basta uma simples análise conjuntural, sem precisar aprofundar em questões estruturais para constatar que há muito por se fazer e nada sendo feito.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Como apagar a escuridão?

Enquanto boa parte do mundo está com o cronograma de vacinações contra a Covid-19 bem estruturado e em estágios que podem até serem considerados como avançados, por aqui as coisas estão bem devagar. O desenvolvimento de vacinas com relativa eficiência é fundamental para a proteção de vidas e para a retomada da vida cotidiana e do nível de atividade econômica.

A insistência negacionista do presidente e de seu séquito foi responsável por este atraso no Brasil. Se tivessem se preocupado com isto o governo teria se posicionado estrategicamente e poderíamos ter a garantia de atendimento de quantidades maiores de vacinas. Mais uma vez ficaremos para trás por causa da teimosia de pessoas autoritárias que pensam que sabem o que é melhor para a população.

Se não bastasse isto, os governos estaduais e o federal querem impor o retorno da vida cotidiano mesmo sem a garantia de vacinação. Isto é temerário, embora tenhamos que buscar alternativas para isto. O próprio retorno das aulas no formato presencial ou híbrido gera muitas divergências de opiniões. Mas se permitimos aglomerações em festas, praias, clubes, bares, restaurantes e em inaugurações de prefeituras sem o devido protocolo não podemos estranhar que tenham pessoas que concordem com o retorno das aulas com o cumprimento de protocolos de segurança.

O próprio governo do estado do Paraná autorizou o retorno presencial das aulas e a Secretaria de Estado da Saúde emitiu Resolução estabelecendo como devem ser os cuidados nas escolas públicas e privadas para este retorno. Inclusive estabelece a disponibilização de insumos e intensificação dos serviços de limpeza e desinfecção. É o correto, mas será que as escolas públicas e privadas têm recursos financeiros, materiais e humanos disponíveis para cumprir com estes procedimentos? Se tivéssemos com o cronograma de vacinações mais avançado as coisas poderiam ser mais fáceis e menos arriscadas.

E acompanhando tudo isto temos a economia que não dá mostras de retomada da atividade, até porque umas pessoas estão com receio de sair e consumir e outras não conseguem consumir porque não possuem renda porque caiu o movimento de seus respectivos negócios ou porque perderam os empregos.

E para piorar as coisas os preços não param de subir. Alimentos, combustíveis, transporte coletivo e outros serviços públicos estão tendo seus preços majorados normalmente, se contrapondo à queda da demanda por falta de renda. Nos próximos quatro anos, incluindo 2021, temos uma expectativa de inflação de 14,3%, sendo que os preços administrados por contratos ou monitorados aumentarão 16,1%.

Também temos uma expectativa de crescimento do PIB de apenas 11,4% para o mesmo período, o que significa que os empregos que se perderam nos últimos quatro anos não serão recuperados nos próximos quatro, com o agravante de que os salários reais perderão poder aquisitivo por conta da inflação em alta.

Com a não retomada do crescimento da economia de forma vigorosa e com a manutenção do desemprego em patamares elevados há uma tendência de termos um aumento da extrema pobreza no país, fato que somente poderá ser amenizado com a manutenção do auxílio emergencial. Porém, as contas públicas não comportam mais gastos que gerem déficits.

Mas nossos políticos querem a manutenção do auxílio emergencial sem que seja considerado o teto de gastos e sem os respectivos cortes de despesas. Querem mágica. Temos que descobrir como acender as luzes da razão e apagar a escuridão da ignorância e individualismo de alguns agentes políticos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Tudo sempre igual

No ano de 2018, a retórica do então candidato a presidente, Jair Bolsonaro, e de seus asseclas incluía, entre tantas coisas palatáveis à maioria dos ouvidos dos brasileiros, que não iriam se utilizar da chamada “velha política”. O termo é usado para se referir ao presidencialismo de coalizão, que nada mais é do que o presidente da República fazer concessões de cargos no governo e a liberação extraordinária de verbas para aplicação na base política dos parlamentares em troca de apoio político para sustentação das propostas do governo.

É o popular “toma lá, dá cá” que sempre foi rechaçado por Bolsonaro e que agora se escancarou de vez que ele nunca pretendeu cumprir com tal promessa de campanha. É claro que não havia outra alternativa para garantir o apoio no Congresso Nacional, uma vez que sempre se negou a atender as demandas da maioria dos parlamentares.

Demorou muito para que o governo percebesse que não conseguiria a tão necessária governabilidade sem o apoio estratégico dos parlamentares e agora que esta questão está quase que resolvida o governo tem que assumir uma agenda real de reformas estruturais para garantir o equilíbrio fiscal e a perenidade do financiamento adequado das políticas sociais que a população necessita, em especial os mais pobres.

Está posto que o governo deve assumir a agenda porque este governo não possui uma agenda para o Brasil. Possui narrativas e pequenas ações específicas que atendem ao seu séquito. E não adianta os seguidores terem seus faniquitos porque é isto mesmo, o governo não possui uma agenda. E muito menos uma agenda de reformas estruturais, sem as quais as finanças públicas irão se deteriorar, podendo chegar a colapsar.

Isto mesmo, a situação das finanças do governo federal é muito grave e isto está ocorrendo com muitos estados da federação e as finanças de muitos municípios já começam a dar sinais de que estão muito próximos de se desequilibrarem. Estes eventos reais e os possíveis não é culpa dos atuais gestores, pois trata-se de um processo histórico de concessões de benesses para diversos atores, ausência de critérios de produtividade no setor público, aplicação de recursos em áreas, obras ou ações que não são prioridade para a maioria da população e assim por diante.

Com efeito, o setor público se tornou ineficiente pelo simples fato de que muitas ações “travaram” as despesas em áreas que não são prioritárias ou mesmo pelo simples fato de se atender demandas de pequenos grupos de interesse em detrimento do conjunto da sociedade.

Há um comprometimento muito grande dos orçamentos da União, dos estados e dos municípios com a folha de pagamento e encargos sociais como resultado de um processo histórico. Porém, é muito comum a população reclamar de falta de pessoal para atendimento nos setores da saúde, educação e segurança pública. Isto pode ser contraditório, mas é o que aconteceu em muitos locais: contratações realizadas sem o devido planejamento estratégico que inchou setores que não possuem a devida necessidade de pessoal e a falta de contratação em outras.

Por isto é que temos demandas reprimidas pelos serviços públicos de saúde, educação e segurança, porque o setor público não possui margem orçamentária para efetuar as contratações necessárias e quem “paga o pato” é a população. Daí a necessidade de o governo federal precisar de apoio no Congresso Nacional, para aprovar as reformas estruturantes, em especial a reforma administrativa. Resta saber se o presidente quer. Caso contrário, continuaremos com tudo sempre igual.